Teatro: Pineal – Ritual Cênico

Ontem foi o último dia de apresentação de uma das peças que fiquei mais feliz de ter ido no último mês. Eu senti como se minhas energias fossem renovadas a cada nova visita ao Teatro Poeira. Assisti Pineal três vezes. Cada dia com amigos diferentes, e cada vez mais saia preenchida de uma forma, energizada #evoé

Vi no Facebook o evento, como nunca tinha ido ao Teatro Poeira, não conhecia a companhia deles Teatro de Afeto e queria saber qual era do Ritual Cênico – visto que tinha acabo de voltar duma puta imersão teatral antropofágica, repleta de rituais cênicos (expuuuurgaaa!!!) – juntei o útil ao agradável e fui saber qual era.

 Na primeira apresentação, foi aquela sensação de não entender nada do que estava acontecendo, era incomum das apresentações que já fui. Fomos recebidos pelo elenco na entrada, “por favor, se direcionem à roda!”. Já na roda, de mãos dadas com desconhecidos, uma moça diz “coloquem um item pessoal que desejam energizar!”. No primeiro dia, não pensei em nada, apenas observei tudo o que acontecia. Nos outros dois, levei o roteiro da montagem que tô participando e meu par de brincos que sempre uso 🙂

As meninas fizeram uma roda, com seus próprios itens pessoais, respiradas fundas, elas se olham, respiram fundo novamente, sorriem e… juntas caminham para um canto iluminado falando nome de diversas mulheres (importantes?) com um círculo de sal no chão. Todos os itens estavam lá. Fica tudo escuro.

Do canto do palco saí uma menina com um rolo pesado, corpo rígido, roupa em tom de pele e cabelos embaixo de uma touca cor de pele “Honra é honra!” brada ela. Entre um cenário mínimo – em cima de um tapete com dois baldes de lama (ou argila?), uma cadeira – e um texto sobre relatos de ser mulher nesse mundo machista! Seu corpo extra cotidiano repleto de massa combinados ao texto, trazem a aflição na medida, ela sai..

Caminham pelo espaço, como se quisessem dizer algo… se destaca uma voz “um quase relacionamento, uma quase vida..”. Começa o monólogo sobre todas as dúvidas que eu já senti, aquela sensação de “tocar o céu, mas era apenas um tela azul..”. Ela anda de patins, repete “eu conheço muitas formas de mim, mas não todas”, isso ainda fica na minha cabeça, minhajuda señor! Aquela cantoria animada para mais um soco no estômago que estava por vir..

Entra uma jovem, de macacão cor de pele. Conta relatos de uma noite sexual, no início todos riem, é engraçado ver aquela voz bem aguda e um corpo em movimentos frenéticos “será que eu estou bonita nessa posição”. Por fim, é quase um se liga, e na minha cabeça de jovem mulher ficava a mesma sensação de “caraca, somos tão objetificadas e às vezes, nós mesmas permitimos isso por achar normal, faz parte!” Não, não faz, e nenhuma mulher merece ser reduzida a uma transa às 5h da manhã porque macho quer, não se permita sofrer por babacas. “E não será por você…”

Chega mais um monólogo, dessa vez é sobre o “amigo secreto”. Um namoro abusivo que fora exposto pra todos naquele teatro terem conhecimento. Ela cita níveis, ilustra e nomeia o tormento. Novamente, um cenário mínimo, aquela sensação de aflição a cada novo relato, e eu só consigo dar graças à Deus por nunca ter passado por isso, mas dói o coração saber que tenho amigas que passam 😦

Quando a luz acende, temos uma mulher negra de calcinha vermelha, olhos vendados. Voz in off soa pela sala e através do corpo, ela ilustra o que é ser uma mulher negra nesta sociedade machista. Frases como “mulher negra fode pra caralho”, “que isso, hein”, “desculpa, é que minha mão tem um imã para a sua bunda” trazem luz à esse cenário cotidiano, que rebaixa a mulher negra à sexualização.  Ela se veste, dança ao som de atabaque, senta e diz “o que você vê quando me olha”… no meu primeiro dia, e luz veio pra mim e eu só pude dizer “respeito”, o que dizer? Ela estava se expondo a uma platéia mista, explorando um tema que muitos dizem ser mimimi. Sentir respeito por sua coragem foi o mínimo!

Chegamos a um dos que mais mexeram comigo. “Certa vez chovi por dentro e molhei todas as roupas do meu varal interno”. Um relato pesadíssimo como soco no estômago, aquela jovem contando sobre amor, mesmo tendo se decepcionado tanto e com tão pouca idade, para você ter ciência que ter 100 anos não reflete o quanto de experiência você já viveu. Ela canta, que hino, que voz! Fico arrepiada só de lembrar. Chorei as três vezes que fui, cada vez me impactava de uma forma.. pela história, por me sentir frágil, por querer tê-la abraçado, ajudado.. enfim. E ela ainda sorri, fala sobre, compartilha que quer falar de amor.

Entra a futura mamãe de Morena. Sua voz doce, o barrigão lindo.. as meninas estão amarradas à ela. Ela narra a insegurança, o medo, a força. E ao final, canta uma música linda para a filha.. é para aliviar o coração e morrer de fofura ❤

Temos um homem se apresentando também!hehe Tom! Já chega se ditando quem é, “homem, branco, loiro, olhos azuis, morador da zona sul, de família de artistas, capricorniano (eu também haha), tricolor e segundo o governo, classe média alta”. Tu sente um frio na espinha em ouvir isso e pensar “tá, foda-se migo!”. Mas depois ele explica, que sair da bolha é complicado, que nossos pais sentem medo por nossa segurança. “A violência existe por causa do dinheiro, o dinheiro existe por causa do poder”. E é isso, somos coagidos constantemente com esse cenário horroroso e medonho de vida dentro de jaulas. Ele ilustrar sua “boa vida” pra um público misto, entre pessoas de classe artística ou não, classes econômicas diferentes, colocando sua cara para bater e ser julgado em diversas vertentes por ter exposto isso. Vai da interpretação de cada, porém, foi válido ouvi-lo.

Chegamos ao final.. ela e a árvore Berenice. Larissa, sem medo de dizer que errou o texto, corre, canta, fala de amor, que deveria ter regado mais a árvore, que deveria ter ligado mais.. alfineta “favelada sim, mas fazendo duas faculdades”, “drama todo mundo faz, quero ver achar meu clitóris.. até o dicionário sabe, menos você”. Ela pede para Tom uma música para ter um momento bonito chorando, a gente ri enquanto ela conta momentos de um relacionamento que teve fim, quando ela brada “foda-se”. Ao final, ela vira primavera com o tórax pintado de flores e você sorri, porque é engraçado, leve e lindo. Garantiu boas gargalhadas ao final desse espetáculo.

Pineal percorre tanta coisa com os monólogos, que é inevitável não se emocionar em algum momento. Foi uma das peças mais lindas – até o momento – que amei ter conhecido, assistido, colaborado, levado amigos (e queria levar mais hehe). Além disso, me deram um gás quanto ao teatro – inclusive sobre o que eu faço lá -, saí mais apaixonada por essa arte e entender que teatro é isso. Obrigada, e voltem PELAMOR!

“Salve as Caboclas da Mata, salve Iracema, salve Jurema!
Salve as Caboclas da Mata, Iara, Jussara, Jupira e Jandira!
Okê, Okê, Okê Caboclo!

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